Resposta curta
Sim. Pessoas com anatomia pélvica masculina, feminina ou alterada por cirurgia têm estruturas do assoalho pélvico, e muitas pessoas adultas conseguem aprender a contrair e relaxar esses músculos voluntariamente. Os exercícios de Kegel não são “exercícios para mulheres”, e ser homem ou mulher não determina, por si só, se o fortalecimento é adequado.
As perguntas relevantes são: qual é sua anatomia e seu histórico de saúde, qual objetivo ou sintoma está sendo abordado, se você consegue contrair e relaxar corretamente e se o programa é respaldado para esse contexto. Algumas pessoas precisam de avaliação, relaxamento, coordenação ou outro tratamento, em vez de um fortalecimento genérico.
A base compartilhada
Em diferentes anatomias, o assoalho pélvico é um conjunto de camadas musculares e tecidos conjuntivos na base da pelve. Ele contribui para o suporte pélvico e se coordena com as funções urinária, intestinal, sexual, respiratória e de movimento. O glossário da ICS enfatiza que a função normal inclui tanto contração quanto relaxamento.
Uma contração voluntária básica do assoalho pélvico costuma ser descrita como uma ação de fechamento ao redor das aberturas pélvicas, acompanhada de uma elevação para dentro. Uma repetição completa também inclui soltar essa ação e retornar ao repouso. A sensação exata e o movimento visível podem variar conforme a anatomia, a posição, as cirurgias e o controle individual.
Os mesmos princípios gerais de treinamento se aplicam:
- identifique o movimento pretendido antes de adicionar carga;
- continue respirando e evite empurrar para baixo;
- diferencie o esforço do assoalho pélvico de um enrijecimento desnecessário do corpo inteiro;
- inclua o relaxamento completo;
- ajuste força, resistência muscular, velocidade, coordenação ou relaxamento ao objetivo; e
- pare quando a técnica ou os sintomas piorarem.
Essas semelhanças não tornam todos os programas intercambiáveis.
A anatomia muda as orientações, não o direito de participar
Pessoas com pênis e anatomia prostática
Entre os sinais externos comuns estão um discreto encurtamento ou movimento para dentro na base do pênis e uma elevação ao redor do ânus. Essas observações podem ajudar no aprendizado, mas não comprovam a força da contração nem identificam todos os músculos envolvidos. Após uma cirurgia da próstata, o momento de iniciar e a técnica devem seguir as orientações da equipe cirúrgica ou de reabilitação.
Pessoas com vagina e útero
Descrições comuns incluem fechar ao redor das aberturas vaginal e anal e elevar para dentro. Um espelho pode mostrar um pequeno movimento para dentro da região perineal, em vez de um abaulamento para baixo. Gestação, parto, sintomas de prolapso, menopausa, dor pélvica e cirurgia ginecológica podem mudar o que precisa ser avaliado e qual objetivo é adequado.
Pessoas transgênero, intersexo e com diversidade de gênero
O treinamento deve se basear na anatomia atual, nas cirurgias, nos hormônios, nos sintomas, nos objetivos, no conforto e na linguagem preferida da pessoa — não em suposições feitas a partir da identidade de gênero. Cirurgias genitais ou pélvicas podem alterar a sensibilidade, a carga sobre os tecidos, os sinais de movimento e as restrições pós-operatórias. Um profissional com experiência na anatomia em questão pode adaptar a avaliação e a linguagem sem excluir a pessoa dos cuidados com o assoalho pélvico.
A referência anatômica do NCBI descreve o assoalho pélvico como um complexo muscular e fascial, e não como um único músculo específico de determinado sexo. Os diagramas voltados ao público são simplificados; a anatomia individual varia.
Os objetivos variam dentro de cada sexo
As pessoas podem buscar o treinamento do assoalho pélvico para:
- perdas urinárias aos esforços;
- urgência urinária dentro de um plano mais amplo para a bexiga;
- reabilitação relacionada a tratamento da próstata ou da pelve;
- cuidados durante a gestação ou no pós-parto;
- apoio ao controle intestinal;
- suporte dos órgãos pélvicos;
- determinados objetivos de função sexual;
- percepção e coordenação; ou
- aprender a liberar tensão desnecessária.
Nenhum objetivo pertence exclusivamente a um gênero, e nenhum deles significa automaticamente “contrair com mais força”. Por exemplo, as perdas de urina podem ter diferentes tipos e causas. Sintomas sexuais podem envolver fatores vasculares, neurológicos, hormonais, relacionados a medicamentos, tecidos, relacionamentos ou fatores psicológicos. A dificuldade de esvaziamento intestinal pode envolver falta de relaxamento, e não força insuficiente.
As evidências não são igualmente abrangentes para todos os grupos
A existência de um assoalho pélvico em diferentes corpos não significa que as pesquisas estejam distribuídas de forma uniforme. Grande parte das evidências sobre o treinamento dos músculos do assoalho pélvico (PFMT) diz respeito a mulheres com incontinência urinária. Outros estudos abordam homens após tratamento da próstata, pessoas durante a gestação ou no pós-parto, sintomas intestinais ou função sexual. Os protocolos e o grau de certeza variam.
A referência da ICI/ICS descreve o PFMT como um processo estruturado que pode trabalhar várias qualidades musculares. Mesmo assim, suas conclusões específicas para cada condição devem ser aplicadas apenas às populações estudadas. O relatório de terminologia da IUGA/ICS se concentra em disfunções do assoalho pélvico feminino; ele padroniza termos, mas não estabelece resultados idênticos entre anatomias.
Quando uma afirmação se baseia em uma única população, uma orientação responsável deve deixar isso claro. A linguagem inclusiva não pode apagar os limites das evidências.
Como a técnica pode produzir sensações diferentes
Os sinais corporais são recursos de ensino, não testes. Uma pessoa pode perceber primeiro o movimento próximo ao ânus; outra pode notar o fechamento uretral ou vaginal; outra pode sentir apenas uma vaga elevação interna. A sensibilidade pode ser afetada por parto, cirurgia, dor, condições dos nervos, cicatrizes, ansiedade, posição ou falta de familiaridade.
Evite interromper o jato urinário como exercício habitual ou teste repetido. O NIDDK orienta praticar os exercícios de Kegel com a bexiga vazia e não fazê-los rotineiramente durante a micção. Se a dúvida persistir, procure uma avaliação em vez de aumentar as repetições.
Quando exercícios de Kegel genéricos podem ser inadequados
Independentemente de sexo ou gênero, interrompa o fortalecimento autoguiado e procure orientação qualificada se você tiver:
- dor pélvica, genital, retal, abdominal ou lombar relacionada à prática;
- dor durante penetração, ejaculação ou atividade sexual;
- dificuldade de relaxar ou sensação persistente de contração;
- dificuldade para iniciar ou concluir a micção ou a evacuação;
- pressão ou peso vaginal ou retal, ou um abaulamento;
- piora da urgência urinária ou das perdas com o exercício;
- cirurgia pélvica, prostática, genital ou abdominal recente;
- uso atual de cateter, tratamento oncológico ou sintomas neurológicos importantes; ou
- um plano prescrito por profissional de saúde que entre em conflito com orientações genéricas.
Essas características não demonstram que os exercícios de Kegel sejam proibidos. Elas indicam que o objetivo, o movimento e a dose precisam de um contexto individual.
Uma verificação inicial segura e inclusiva
Antes de adicionar carga, pergunte:
- Consigo começar em um estado de repouso confortável?
- Consigo produzir um pequeno movimento para dentro sem empurrar para baixo?
- Consigo respirar e manter os músculos próximos relativamente relaxados?
- Consigo relaxar completamente depois?
- A tentativa continua sem dor e não altera a função da bexiga nem do intestino?
Se a resposta for sim, uma sessão de técnica com baixa fadiga pode ser razoável para uma pessoa adulta geralmente saudável. Se a resposta for não, ou se o objetivo envolver uma condição diagnosticada, use orientações específicas para a anatomia e a condição.
Limites de segurança
Pare se o exercício causar dor, pressão, peso, piora da urgência urinária, dificuldade para eliminar urina ou fezes ou tensão persistente. Quando se aplicar ao seu caso, siga as instruções da equipe cirúrgica, obstétrica, oncológica ou de reabilitação. Procure atendimento urgente se houver incapacidade súbita de urinar ou dormência nova na região em sela/genital acompanhada de alterações agudas na bexiga, no intestino ou nas pernas.
O que fazer a seguir
Escolha a visão geral de anatomia que melhor se aplica a você: exercícios de Kegel para homens ou exercícios de Kegel para mulheres. Esses rótulos organizam anatomias e evidências comuns; use o guia mais compatível com seu corpo e contexto de cuidados. Para entender a base compartilhada, leia o que significam exercícios de Kegel e PFMT.
Fontes
- Bordoni B, Sugumar K, Leslie SW. “Anatomy, Abdomen and Pelvis: Pelvic Floor.” StatPearls. Current online edition. NCBI Bookshelf.
- International Continence Society. “Pelvic Floor Function—General.” Glossário da ICS.
- Cardozo L, Rovner E, Wagg A, Wein A, Abrams P, editors. Incontinence. 7th edition. International Consultation on Incontinence and International Continence Society; 2023. Publicação oficial da ICS.
- Bø K, Frawley HC, Haylen BT, et al. “An IUGA/ICS joint report on terminology for conservative and nonpharmacological management of female pelvic floor dysfunction.” International Urogynecology Journal. 2017;28:191–213. Registro no PubMed.
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. “Kegel Exercises.” Orientação do NIDDK.